"Todo mundo vai e eu fico"
Meu pai não vivia em casa.
Apesar de ter as coisas materiais dele na nossa casa, a presença dele era mais ausência do que qualquer outra coisa..
Ele trabalhava com aviões. Engenheiro e nunca entendi direito o que ele fazia. Toda vez que ele explicava virava um borrão. Didática nunca foi o forte dele, muito menos paciência.
O tempo junto nem sempre era prazeroso. Na verdade, era raro quando ele tinha atenção verdadeira pra gente, tempo e diversão.
Tudo tava errado, o jeito de fazer, a hora de fazer, o lugar de fazer. Bronca, xingo, reprimendas. Tensão e medo.
Mas as lembranças boas prevaleciam quando ficava sem ele em casa.
Principalmente quando ele ia viajar por meses pra fora e a gente ia ficar.
O padrão se repetiu. Primeiro namoro. Terminamos, mas o sentimento era de que ainda estávamos juntos. Ele indo viajar e eu ficando.
A dor de ser deixada para trás. De ser excluída. Não incluída. Não levada junto. Nem sequer convidada.
Dor escorpiana intensa, visceral e profundamente dolorida. Mas o problema principal era: não me conhecer, não me perceber, não me entender, não saber o que sentia e muito menos como expressar meus incômodos e dores em paz, numa conversa de gente pra gente.
Humanidade sempre faltou em casa, no sentido emocional, pelo menos. Ninguém "abaixo" na cadeia de "poder" nunca era considerado, tudo era frescura ou ignorado ou engolido pelas emoções e "problemas" dos "grandões". E isso sempre independeu do real tamanhoo corporal das pessoas.
Muitas pessoas narcisistas e mulheres, donas de casa e criadoras de filhos. CRIANDO as próximas gerações cegamente, do jeito delas. Perfeccionistas e problemáticas demais. Quebradas por dentro, sem buscar ajuda, vomitando suas dores e raivas e frustrações do mundo nos outros. Esses "outros" eram nós, era eu, eram as pessoas próximas.
Minha mania e personalidade de querer mediar, de evitar brigas, de querer que todos fiquem bem, sempre me prejudicou no quesito "ser feliz".
Nesse ponto tem ligação com o título do post e a sensação eterna de quando eu sinto algo que me machuca. Todo mundo vai e eu fico. Fico empacada no sentimento. Demora para sair, para melhorar, apra parar de doer, para superar. Em casa sempre era considerada e tida como a pessoa dramática, exagerada, que tava fazendo caso. Ninguém deu muita bola. Ainda não dá.
Agora quando os dramas deles acontecem, quem não liga sou eu. Porque se eu ligo, eu fico e eles vão embora. Eu fico sozinha com uma dor que não é minha. E consequentemente, muito difícil de curar. E quem deveria estar ali pra mim, para me ajudar a ficar bem, some, propositalmente. Em presença e apoio de toda espécie.
Hoje eu nem vou, para não ficar. As pessoas vão, mas eu fico, dessa vez, eu fico porque quero e fico bem. Comigo mesma.
Texto de: Vanessa Yukimi Komatsu
Imagem: Pinterest
21 de junho de 2022
08h23

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